Como falar da vida sem falar da morte?

terça-feira, 14 de abril de 2020

 

A tempestade vai passar, a água vai se acalmar e perceberá que o céu nunca foi mais azul e a água nunca foi tão translúcida e cristalina

 

 

Não há ressurreição, renascimento e metamorfose sem a morte. No entanto, não desapegamos “da vida” para que ela se renove. E se você pudesse escolher não morrer e viver pra sempre a sua vida? Você escolheria viver eternamente? Interessante reflexão, não?

 

Porque será que tememos tanto a morte? Tememos a morte porque desconhecemos a própria vida, no significado mais vivo da palavra. Não reconhecemos o quanto de vida existe na morte em todos os sentidos. Vivemos aprisionados ao ego, acreditando que somos nosso corpo, nossas experiências, nossos encontros, pensamentos, sentimentos, e emoções. Portanto, a vida se torna esse conjunto de conquistas, memórias, significados e experiências que armazenamos com o tempo e não queremos perder. Mas e se entendemos tudo errado?

 

Vida é uma palavra muito potente para representar medo, restrição e limite. Vida não pode ser finitude, vida é eternidade! A vida é liberdade, é o fluxo divino da criação que permeia tudo, em todos os tempos, espaços e dimensões que ainda desconhecemos. Vida é Deus transbordando sua infinitude. Aqui na Terra e para todo e sempre.

 

Nós somos vida

 

 

Nós, somos a própria vida se expressando por meio da experiência humana. E, no entanto, passamos grande parte do tempo que dura esse milagre da vida humana sem saber quem nós realmente representamos aqui. Com isso tememos o impossível: a morte, e assim, representamos o medo. Tememos o fim de algo que é infinito: a vida! Percebe como é fácil falar de vida e voltar para o medo? O medo teme tudo que não é familiar a mente, aquilo que ela não entende, não toca, não ouve, não vê.

 

Nos momentos em que a vida pede a morte, nos vemos frente a frente com o desconhecido: a transformação, a evolução e a mudança.  Com isso a tendência natural do corpo e da mente é tentar frear o movimento, manter o status presente na familiaridade e na estrutura do passado. Do conhecido existente às ultrapassadas rotinas diárias e no piloto automático da vida.

 

A mente não deixa nossos hábitos morrerem, nossa rotina terminar, nossa existência se transformar. Porém, não conseguimos manter a previsibilidade da familiaridade por muito tempo, pois a vida é movimento, lembra? E ela chega chegando como a correnteza em dia de tempestade.  É a impermanência batendo na porta, é a morte que trás o renascimento e mais vida por todo e sempre. Morremos e renascermos para nós mesmos várias vezes na mesma vida se assim o permitirmos.

 

Vida é Deus transbordando a sua infinitude através de cada um de nós! E para isso é preciso o movimento. É preciso fluir. É preciso deixar-se morrer para que algo novo possa renascer em nós. Ah, o movimento… Quanta beleza nessa palavra.

 

Jornada da vida

 

 

A jornada da vida pede metamorfose, renovação e esse movimento pede que a gente volte nossa energia pra dentro e se deixe fluir. Isso leva a gente a remexer a água da vida em nós, levantando lama, pedras, ossos. É como o fundo de um riacho em dias de tempestade, quando a força da correnteza faz a água ficar turva, pois levanta a lama antes pesada e assentada no fundo.

 

Agora é tempo de sentir o movimento, observar a água turva e deixar-se fluir pela correnteza. Deixa ir, sem racionalizar, sem entender o que foi e o que fica, só confia no fluxo. Sinta a beleza de se tornar impermanente, fluido.

Observe e seja a consciência por trás de todo essa tempestade, essa água, essa correnteza, esse riacho em movimento. Veja a beleza da vida em movimento através de você. Seja a própria vida em movimento e nunca mais terá medo da tempestade nem da correnteza. Nunca mais terá medo da impermanência.

 

A tempestade vai passar, a água vai se acalmar e perceberá que o céu nunca foi mais azul e a água nunca foi tão translúcida e cristalina. A vida é uma questão de ponto de vista. É tempo de ressignificar a vida, permitir-se transformar valores, objetivos, propósitos, consumo, relações.

 

Por: Mariana Nahas

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