Maçonaria: entenda a importância dos símbolos na tradição

A Maçonaria se constitui, desde suas origens operativas e especulativas, como uma tradição essencialmente simbólica. Diferentemente de sistemas dogmáticos ou de filosofias puramente discursivas, ela transmite seus ensinamentos por meio de símbolos, rituais, gestos e imagens, não com o objetivo de informar conceitualmente, mas de provocar uma experiência interior transformadora. O símbolo, nesse contexto, não é um ornamento pedagógico nem um enigma a ser decifrado racionalmente; mas sim um instrumento vivo de iniciação, destinado a operar sobre a consciência do iniciado ao longo de sua jornada moral, intelectual e espiritual.

Maçonaria e a linguagem simbólica

A linguagem simbólica pressupõe que o conhecimento não pode ser transmitido de forma direta, linear ou expositiva. Certas verdades, sobretudo as de ordem espiritual, perdem sua força quando reduzidas a meras definições conceituais. Por isso, a Maçonaria preserva uma pedagogia indireta, ritualizada e imagética, na qual o sentido se revela progressivamente, conforme o grau de maturidade interior de quem a vivencia. O símbolo não se esgota em uma explicação: ele permanece aberto, polissêmico e ativo.

Símbolo, sinal e alegoria

Neste contexto, é fundamental distinguir símbolo, sinal e alegoria. O sinal possui um significado fixo e convencional, esgotando-se em sua função informativa. A alegoria representa uma idéia abstrata por meio de imagens, mas pode ser totalmente explicada e encerrada em um discurso racional. O símbolo, ao contrário, conforme assinala Carl Jung, remete simultaneamente a múltiplos níveis da realidade: psíquico, moral, espiritual e arquetípico, sem jamais se esgotar em um único sentido. Ele atua como um espelho da consciência, revelando diferentes camadas conforme o desenvolvimento interior do intérprete.

Símbolo vivo x símbolo explicado

Daí decorre a distinção central entre o símbolo vivido e o símbolo explicado. O símbolo vivido atua por meio do ritual, do silêncio, da repetição e da experiência corporal e emocional, produzindo transformações muitas vezes inconscientes e não verbalizáveis. A explicação literalista dos símbolos pode auxiliar a compreensão, mas jamais substitui a vivência. Quando o símbolo é reduzido exclusivamente à interpretação racional, ele perde sua potência transformadora e corre o risco de se cristalizar em dogma, algo que a tradição iniciática sempre evitou.

Mente moderna pode interpretar símbolos de forma errônea

Um dos maiores obstáculos contemporâneos à compreensão do simbolismo maçônico é o erro da literalização. A mentalidade moderna, marcada pelo racionalismo excessivo, tende a interpretar símbolos como fatos históricos, alegorias morais ou curiosidades folclóricas, deslocando-os de sua função essencial. Quando isso ocorre, o símbolo deixa de operar como linguagem da alma e passa a ser julgado por critérios inadequados, empobrecendo a experiência iniciática e reduzindo a Maçonaria a uma mera escola moral ou cívica.

Mente expansiva = novas chaves

Na perspectiva iniciática, o símbolo não existe para revelar de forma direta, mas para velar. Essa ocultação não é enganosa, mas protetora: aquilo que é profundo exige maturidade interior para ser acessado. Assim, o símbolo funciona como um filtro natural, revelando apenas o que o intérprete é capaz de perceber. Por isso, ele não possui um significado único ou definitivo; ele permanece o mesmo, mas à medida que iniciado se transforma, novas chaves lhes são fornecidas para o seu entendimento holístico. 

Conceito existe além da Maçonaria

Essa lógica não é exclusiva da Maçonaria, mas comum às grandes tradições iniciáticas da humanidade, como o cristianismo primitivo, o hermetismo, a escola pitagórica e a Cabalá. Em todas elas, o conhecimento transformador nunca foi transmitido de modo direto, mas envolto em mitos, parábolas, números e imagens arquetípicas. O símbolo não informa: ele inicia. Não ensina o que pensar, mas desperta aquilo que deve ser vivido.

Despertar é o caminho

Assim, ao preservar o símbolo como eixo central de sua pedagogia, a Maçonaria mantém viva uma tradição ancestral que reconhece que a verdade não se impõe nem se explica por completo. Ela se revela à medida que o indivíduo se torna capaz de recebê-la. O símbolo, ao ocultar, preserva; ao velar, desperta; e ao silenciar, conduz o iniciado ao essencial.

João Alexandre Paschoalin Filho é Maçom Grau 33, membro da Academia Campinense Maçônica de Letras, professor e autor. Apresentador do Programa Sabedoria Oculta da Vibe Mundial FM – Segunda-feira 15h30 – 16h00

Usamos cookies para melhorar sua experiência e analisar o tráfego do site. Ao continuar navegando, você concorda com nossa Política de Privacidade.

Configurações de Privacidade

Escolha as categorias de cookies que deseja aceitar. Você pode alterar estas preferências a qualquer momento.